Liberdade
"Para a liberdade foi que Cristo nos libertou." (Gálatas 5:1)
Essa afirmação de Paulo deveria provocar uma pergunta incômoda: por que tantos cristãos sinceros não experimentam essa liberdade?
Muitos vivem como se a vida cristã fosse uma dívida interminável. Sabem que Cristo morreu por eles, creem na salvação pela graça e rejeitam a ideia de merecer o favor de Deus por meio das obras. Ainda assim, carregam um peso constante: a sensação de nunca serem suficientemente santos, suficientemente gratos ou suficientemente fiéis.
Isso me levou a uma pergunta que considero mais profunda do que simplesmente discutir salvação ou santificação:
Do que uma pessoa precisa ser livre para ser verdadeiramente livre?
A liberdade que o mundo promete
A cultura moderna costuma definir liberdade como ausência de restrições. Ser livre seria fazer aquilo que se deseja, decidir o próprio destino e não depender de ninguém.
Mas basta observar a realidade para perceber que isso não funciona.
Há pessoas livres politicamente que são escravas do dinheiro.
Há pessoas financeiramente independentes que vivem dominadas pela ansiedade.
Há pessoas capazes de escolher qualquer estilo de vida, mas incapazes de controlar seus próprios impulsos.
Talvez liberdade não seja simplesmente poder escolher.
Os filósofos já haviam percebido isso
Os estoicos, como Epicteto e Marco Aurélio, ensinavam que ninguém controla o mundo exterior. A verdadeira liberdade consiste em governar a si mesmo.
Diógenes de Sinope levou essa ideia ainda mais longe. Escolheu viver com o mínimo possível para reduzir suas dependências. Quanto menos necessidades artificiais uma pessoa possui, mais livre ela se torna.
Essas reflexões continuam atuais.
Entretanto, existe um problema: mesmo o eremita mais radical continua dependente de alguma coisa.
O mito da independência absoluta
Um dos casos mais conhecidos é o de Christopher Thomas Knight, conhecido como "O Eremita de North Pond".
Ele viveu sozinho durante aproximadamente vinte e sete anos nas florestas do Maine, nos Estados Unidos, praticamente sem conversar com ninguém.
À primeira vista, parece um exemplo perfeito de liberdade.
Mas não era.
Para sobreviver, Knight invadiu centenas de cabanas e roubou alimentos, roupas, baterias, gás e outros suprimentos. Sua vida isolada só foi possível porque continuava dependendo da sociedade que havia abandonado.
O mesmo ocorre com praticamente todos os eremitas documentados pela história. Alguns produzem seu alimento, outros recebem visitas ocasionais, outros contam com comunidades religiosas que lhes oferecem sustento.
A conclusão é inevitável:
O ser humano consegue reduzir suas dependências, mas dificilmente consegue eliminá-las.
Então talvez a pergunta correta não seja:
"Como viver sem depender de ninguém?"
Mas:
"De que dependência preciso ser libertado?"
A resposta de Jesus surpreende
Quando perguntamos isso à Bíblia, a resposta é diferente daquela dada pela filosofia.
Jesus não diz que nossa maior prisão é política, econômica ou social.
Ele afirma:
"Todo aquele que pratica o pecado é escravo do pecado." (João 8:34)
E completa:
"Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres." (João 8:36)
A escravidão fundamental é espiritual.
Isso significa que o maior problema humano não é apenas aquilo que fazemos.
É aquilo que somos incapazes de deixar de desejar.
O pecado não é apenas um conjunto de atos.
É uma força que inclina o coração para longe de Deus.
Por isso Paulo escreve:
"Porque o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo." (Romanos 7:18)
A liberdade cristã começa quando Cristo quebra esse domínio.
Então por que tantos cristãos não se sentem livres?
Aqui entramos em uma questão delicada.
Sou profundamente grata pela tradição reformada.
Ela recuperou uma verdade central das Escrituras: somos justificados unicamente pela graça, mediante a fé, por causa da obra completa de Cristo.
Sem a Reforma, provavelmente continuaríamos presos à ideia de conquistar o favor de Deus pelas obras.
Entretanto, às vezes percebo que algumas comunidades reformadas acabam produzindo um efeito inesperado.
Fala-se constantemente sobre:
nossa depravação;
nossa incapacidade;
nossa dívida;
nossa indignidade;
o alto preço pago por Cristo.
Tudo isso é verdadeiro.
Mas será que isso resume toda a mensagem do Novo Testamento?
Parece que não.
O Novo Testamento fala tanto de filhos quanto de pecadores
É interessante observar a linguagem dos apóstolos.
Eles certamente lembram aos cristãos que foram pecadores.
Mas, depois da conversão, passam a chamá-los repetidamente de:
filhos;
santos;
irmãos;
herdeiros;
nova criação;
povo de Deus.
Paulo afirma:
"Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus." (Romanos 8:1)
Logo em seguida acrescenta:
"Porque não recebestes espírito de escravidão para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o Espírito de adoção, baseado no qual clamamos: Aba, Pai." (Romanos 8:15)
Observe o contraste.
Paulo não contrapõe pecado e santidade.
Ele contrapõe escravidão e filiação.
Essa mudança é enorme.
Réus absolvidos ou filhos adotados?
Existe uma diferença profunda entre essas duas imagens.
Um réu absolvido continua pensando:
"Preciso demonstrar continuamente minha gratidão ao juiz."
Um filho adotado pensa:
"Tenho um Pai."
As duas afirmações reconhecem a graça.
Mas produzem experiências completamente diferentes.
A primeira mantém o foco na dívida.
A segunda coloca o foco na comunhão.
Talvez seja por isso que João escreva:
"No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo." (1 João 4:18)
Não porque Deus tenha deixado de ser santo.
Mas porque o relacionamento mudou.
A cruz produz culpa ou confiança?
Essa talvez seja a pergunta mais importante.
Quando Paulo fala da cruz, qual efeito ele pretende produzir?
Veja Romanos 8:
"Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?" (Romanos 8:32)
Perceba o argumento.
Paulo não diz:
"Olhe quanto você custou."
Ele diz:
"Olhe quanto Deus ama você."
A cruz não serve apenas para lembrar nosso pecado.
Ela revela o amor do Pai.
A liberdade cristã pode ser experimentada?
Creio que sim.
Não como ausência de tentações.
Nem como perfeição moral.
Mas como uma nova maneira de viver.
Livre do pecado que domina a vontade.
Livre da culpa diante de Deus.
Livre do medo da condenação.
Livre da necessidade de construir uma identidade por desempenho religioso.
Livre da idolatria da aprovação das pessoas.
Essa liberdade não significa ausência de luta.
Significa mudança de senhor.
Como escreveu Paulo:
"Mas agora, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna." (Romanos 6:22)
O cristão continua servo.
Mas deixou de servir ao pecado para servir Àquele que o ama.
Talvez tenhamos perdido uma parte da boa notícia
Tenho a impressão de que muitos cristãos conhecem profundamente a doutrina da justificação, mas conhecem pouco a doutrina da adoção.
Sabem que Deus os perdoou.
Mas ainda não aprenderam a descansar.
Sabem que Cristo morreu.
Mas ainda não vivem como filhos.
Talvez seja por isso que Jesus tenha dito:
"Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei... porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve." (Mateus 11:28-30)
Se nossa espiritualidade produz continuamente medo, culpa e sensação permanente de dívida, vale a pena perguntar se estamos contemplando toda a mensagem do Evangelho.
O Evangelho começa com nossa miséria.
Mas não termina nela.
Ele termina com comunhão.
Não termina com um pecador absolvido.
Termina com um filho sentado à mesa do Pai.
Referências bíblicas
Gênesis 2:15
João 8:31-36
Mateus 11:28-30
Romanos 6
Romanos 7
Romanos 8
Gálatas 5:1
Efésios 1:3-14
1 João 3:1
1 João 4:18
Referências para aprofundamento
Bíblia e teologia
Agostinho de Hipona. Confissões.
João Calvino. Institutas da Religião Cristã (Livro III, especialmente sobre união com Cristo e justificação).
J. I. Packer. O Conhecimento de Deus (capítulo "Filhos de Deus").
Sinclair Ferguson. Filhos do Deus Vivo.
John Owen. Communion with God.
Filosofia
Epicteto. Manual (Enchiridion).
Marco Aurélio. Meditações.
Diógenes Laércio. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres (Livro VI, sobre Diógenes de Sinope).
História contemporânea
Michael Finkel. The Stranger in the Woods: The Extraordinary Story of the Last True Hermit (2017).
Talvez a verdadeira liberdade não seja viver sem depender de ninguém.
Talvez seja depender apenas Daquele para quem fomos criados.
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