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Divergências

A história bíblica demonstra que as divergências internas não são anomalias ocasionais, mas experiências recorrentes na caminhada do povo de Deus. Desde o deserto até a igreja primitiva, o conflito aparece como realidade espiritual que pode tanto corromper quanto amadurecer a comunidade. A análise de 16–17 , em diálogo com outros episódios bíblicos e com a experiência histórica da Reforma Protestante, revela que o problema não é a existência de divergências, mas o princípio que as orienta e o fruto que produzem na vida comunitária. Em Números 16–17, a rebelião liderada por , ao lado de e , manifesta um conflito que se apresenta sob aparência de zelo espiritual. O argumento de que “toda a congregação é santa” expressa uma verdade teológica, mas é utilizado para negar a forma como Deus havia estabelecido funções e responsabilidades no serviço comunitário. O episódio evidencia que divergências podem surgir não apenas de erros doutrinários explícitos, mas de motivações interiores como ...

Sobre relatórios negativos....

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A narrativa dos espias em Números 13–14 revela que o maior perigo para o povo de Deus não eram os gigantes da terra prometida, mas a incredulidade do coração. Os espias relataram fatos reais: a terra era fértil e os povos eram fortes. O problema não foi a informação, e sim a interpretação. Ao avaliar a realidade sem considerar a fidelidade de Deus, produziram um relatório que contaminou toda a comunidade com medo e paralisia. Assim, a incredulidade mostrou-se não apenas um erro pessoal, mas uma força coletiva que impede o avanço do povo de Deus. O Novo Testamento retoma esse episódio como advertência direta à igreja. Em Hebreus 3–4, a geração do deserto torna-se exemplo de como um coração endurecido pode afastar pessoas do Deus vivo. A exortação é comunitária: “exortai-vos mutuamente cada dia”. Isso indica que a fé bíblica não é apenas uma convicção privada; ela é sustentada e protegida no convívio do corpo. Onde falta encorajamento mútuo, a incredulidade encontra espaço pa...

Confiança eterna

Todos os nossos dias estão diante de ti Os dias do passado,  Os dias do presente Os dias do futuro  Aliás, os nossos dias sequer são nossos.  Todos os dias são seus. No passado, quado vivemos situações difíceis No passado, quando vivemos momentos alegres  Tudo que vivemos  Tudo que forjou nosso caráter Tudo estava sob teu olhar Tudo estava e permanece sob teu controle. No presente, ao sentir tudo que sentimos As traições e abandonos da vida adulta As angústias e incertezas  E todo aprendizado e crescimento Estão diante de ti E nosso futuro Ah o futuro que tanto aguardamos Também já está diante do Senhor. Quando tudo está em paz no nosso presente É fácil afirmar que não há o que temer Mas quando tudo vai mal E me lembro da eternidade Me lembras que tu és eterno Terno... Então não tenho nada a temer Perdoa nossa insegurança Porque não o vemos como tu és  Ensina-nos a confiar em ti Encontrar paz em ti Segurar em ti Deleitar em ti  Confiar em ti

Viajando com o mapa em tempos de conflito

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Há momentos em que a fé parece uma travessia confusa. O mundo muda rápido, as certezas antigas são questionadas, as emoções oscilam e, no meio disso tudo, surge o conflito: entre razão e sentimento, entre tradição e novidade, entre o que cremos e o que sentimos. Nesses momentos, a tentação é abandonar o mapa e seguir apenas o que parece mais intenso ou confortável. A teologia, como nos lembra C. S. Lewis, não é Deus — é o mapa. Um mapa nasce da experiência real de quem já percorreu o caminho. Ele não substitui a viagem, mas sem ele a viagem se torna perigosa. Da mesma forma, a doutrina cristã não existe para matar a fé, mas para orientá-la, protegê-la do engano e conduzi-la mais longe do que as emoções sozinhas conseguiriam levar. O conflito surge quando confundimos emoção com encontro. Sentir Deus na natureza, na música ou em um momento especial pode ser verdadeiro e belo, mas isso, por si só, não nos transforma. Emoções não exigem decisão, não confrontam o pecado, não ped...

A Arca de Noé: refúgio, formação e esperança em tempos de caos

A narrativa da Arca de Noé, registrada em Gênesis 6–9, costuma ser apresentada de forma simplificada, muitas vezes restrita ao imaginário infantil. No entanto, biblicamente e teologicamente, a arca carrega um significado profundo, que atravessa gerações e dialoga diretamente com os desafios do mundo contemporâneo. Mais do que um barco, a arca representa a graça de Deus em meio ao juízo, um espaço de formação do caráter humano e um sinal de esperança quando a ordem parece desmoronar. --- Um mundo corrompido e a resposta divina O texto bíblico descreve o contexto do dilúvio de forma contundente: > “Viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra, e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era continuamente má.” (Gênesis 6:5) Violência, corrupção moral e afastamento de Deus marcam aquela geração (Gn 6:11–12). Diante desse cenário, Deus decide agir, não apenas com juízo, mas também com misericórdia. Antes da destruição, Ele oferece um meio de preservação da...

Conflito de gerações, tecnologia e um Deus que nunca ficou para trás

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Conflito de gerações, tecnologia e um Deus que nunca ficou para trás Deus não é um velho que não entende as atualizações modernas do nosso tempo. A própria Bíblia nos mostra isso. A história da redenção começa em um jardim (Gn 2) e termina em uma cidade (Ap 21). Do jardim à cidade, vemos um Deus que, diferente de nós, não tem dificuldade alguma em lidar com a evolução. Muito pelo contrário: Ele promove, sustenta e governa todo o progresso . Nada acontece fora do seu controle (Sl 103.19; Is 46.9–10). Nós, limitados pelo tempo e pelo espaço, muitas vezes nos pegamos confusos e aflitos, achando que Deus perdeu o controle da humanidade. Olhamos para o mundo e temos a sensação de que estamos progredindo sem rumo e que isso inevitavelmente nos levará à destruição. Mas essa leitura não é bíblica. O que começou a destruição do homem — e o que continua a levá-la adiante — não foi o progresso , mas o pecado (Gn 3; Rm 5.12). É o pecado que faz com que vejamos e lidemos com tud...

Pluribus: comunhão, interioridade e o risco de um cristianismo sem encontro

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A série Pluribus , disponível na Apple TV+, apresenta uma inquietação profundamente atual: como viver a unidade em um mundo marcado pela fragmentação? Em meio a identidades múltiplas, vínculos frágeis e relações cada vez mais utilitárias, a narrativa conduz o espectador a refletir sobre pertencimento, responsabilidade e sentido. Ainda que não seja uma obra explicitamente religiosa, Pluribus toca em uma questão central à fé cristã: o que significa, de fato, estar em comunhão? A série não responde a essa pergunta de forma direta. Ela a encena por meio de personagens que lidam, cada um à sua maneira, com o dilema entre preservar a própria identidade e se comprometer com o outro. Entre eles, Carol se destaca como um espelho incômodo da espiritualidade contemporânea. Carol: discernimento ou fechamento? Carol é apresentada como alguém que observa mais do que se expõe, que seleciona cuidadosamente suas relações e que demonstra certo cansaço diante das dinâmicas coletivas. Sua pos...