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Viajando com o mapa em tempos de conflito

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Há momentos em que a fé parece uma travessia confusa. O mundo muda rápido, as certezas antigas são questionadas, as emoções oscilam e, no meio disso tudo, surge o conflito: entre razão e sentimento, entre tradição e novidade, entre o que cremos e o que sentimos. Nesses momentos, a tentação é abandonar o mapa e seguir apenas o que parece mais intenso ou confortável. A teologia, como nos lembra C. S. Lewis, não é Deus — é o mapa. Um mapa nasce da experiência real de quem já percorreu o caminho. Ele não substitui a viagem, mas sem ele a viagem se torna perigosa. Da mesma forma, a doutrina cristã não existe para matar a fé, mas para orientá-la, protegê-la do engano e conduzi-la mais longe do que as emoções sozinhas conseguiriam levar. O conflito surge quando confundimos emoção com encontro. Sentir Deus na natureza, na música ou em um momento especial pode ser verdadeiro e belo, mas isso, por si só, não nos transforma. Emoções não exigem decisão, não confrontam o pecado, não ped...

A Arca de Noé: refúgio, formação e esperança em tempos de caos

A narrativa da Arca de Noé, registrada em Gênesis 6–9, costuma ser apresentada de forma simplificada, muitas vezes restrita ao imaginário infantil. No entanto, biblicamente e teologicamente, a arca carrega um significado profundo, que atravessa gerações e dialoga diretamente com os desafios do mundo contemporâneo. Mais do que um barco, a arca representa a graça de Deus em meio ao juízo, um espaço de formação do caráter humano e um sinal de esperança quando a ordem parece desmoronar. --- Um mundo corrompido e a resposta divina O texto bíblico descreve o contexto do dilúvio de forma contundente: > “Viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra, e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era continuamente má.” (Gênesis 6:5) Violência, corrupção moral e afastamento de Deus marcam aquela geração (Gn 6:11–12). Diante desse cenário, Deus decide agir, não apenas com juízo, mas também com misericórdia. Antes da destruição, Ele oferece um meio de preservação da...

Conflito de gerações, tecnologia e um Deus que nunca ficou para trás

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Conflito de gerações, tecnologia e um Deus que nunca ficou para trás Deus não é um velho que não entende as atualizações modernas do nosso tempo. A própria Bíblia nos mostra isso. A história da redenção começa em um jardim (Gn 2) e termina em uma cidade (Ap 21). Do jardim à cidade, vemos um Deus que, diferente de nós, não tem dificuldade alguma em lidar com a evolução. Muito pelo contrário: Ele promove, sustenta e governa todo o progresso . Nada acontece fora do seu controle (Sl 103.19; Is 46.9–10). Nós, limitados pelo tempo e pelo espaço, muitas vezes nos pegamos confusos e aflitos, achando que Deus perdeu o controle da humanidade. Olhamos para o mundo e temos a sensação de que estamos progredindo sem rumo e que isso inevitavelmente nos levará à destruição. Mas essa leitura não é bíblica. O que começou a destruição do homem — e o que continua a levá-la adiante — não foi o progresso , mas o pecado (Gn 3; Rm 5.12). É o pecado que faz com que vejamos e lidemos com tud...

Pluribus: comunhão, interioridade e o risco de um cristianismo sem encontro

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A série Pluribus , disponível na Apple TV+, apresenta uma inquietação profundamente atual: como viver a unidade em um mundo marcado pela fragmentação? Em meio a identidades múltiplas, vínculos frágeis e relações cada vez mais utilitárias, a narrativa conduz o espectador a refletir sobre pertencimento, responsabilidade e sentido. Ainda que não seja uma obra explicitamente religiosa, Pluribus toca em uma questão central à fé cristã: o que significa, de fato, estar em comunhão? A série não responde a essa pergunta de forma direta. Ela a encena por meio de personagens que lidam, cada um à sua maneira, com o dilema entre preservar a própria identidade e se comprometer com o outro. Entre eles, Carol se destaca como um espelho incômodo da espiritualidade contemporânea. Carol: discernimento ou fechamento? Carol é apresentada como alguém que observa mais do que se expõe, que seleciona cuidadosamente suas relações e que demonstra certo cansaço diante das dinâmicas coletivas. Sua pos...

A igreja de Jesus

Entre instituições cristãs, distorções históricas e a reconstrução da fé  Quando se fala em Igreja no mundo contemporâneo, é comum que a análise se concentre nas igrejas católicas e evangélicas , não por serem as únicas expressões religiosas existentes, mas por serem as que explicitamente se reconhecem como cristãs , afirmando seguir a pessoa e os ensinamentos de Jesus Cristo. Historicamente, ambas se originam do cristianismo primitivo, embora tenham desenvolvido estruturas, liturgias e compreensões distintas ao longo dos séculos. Além delas, existem outros grupos que se identificam como cristãos, como as igrejas ortodoxas — predominantes no leste europeu e no Oriente Médio —, que preservam uma tradição litúrgica antiga, fortemente sacramental e comunitária. Há ainda movimentos restauracionistas, como algumas comunidades independentes, que afirmam buscar um retorno direto ao modelo da igreja do Novo Testamento. Apesar dessas diferenças, todas alegam, em maior ou menor grau, víncu...

Maze Runner: quando o sistema diz que está nos salvando

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Em Maze Runner , um grupo de jovens acorda preso em um enorme labirinto, sem memória do passado e cercado por regras rígidas. Eles são informados de que aquele sistema existe para protegê-los e, supostamente, conduzi-los à salvação. Com o tempo, porém, fica claro que o labirinto não é apenas um desafio: é um mecanismo de controle , sofrimento e morte. Aqueles que criaram o sistema afirmam ter um propósito maior, mas o preço pago são vidas descartadas em nome de um bem futuro. O conflito central do filme surge quando alguns jovens passam a questionar se obedecer cegamente às regras realmente os salvará — ou se perpetuará o mal que os aprisiona. Na Bíblia, em 1 Samuel, encontramos a história do sacerdote Eli, líder espiritual de Israel. Seus filhos, Hofni e Fineias, também sacerdotes, corromperam o culto: exploravam o povo, desrespeitavam as ofertas e profanavam o que era santo. Eli sabia de tudo, mas escolheu não agir com firmeza . Repreendeu com palavras, mas manteve os ...

Quando o mundo vira deserto

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Em Mad Max , o mundo não acabou por falta de recursos, mas por perda de humanidade . O que restou foi um deserto onde: A violência se tornou normal O poder foi concentrado em poucos A água, o combustível e a esperança viraram instrumentos de dominação Não há mais instituições confiáveis, nem memória coletiva saudável. Quem tenta preservar valores é visto como fraco. Quem mantém humanidade sofre perdas. Esse cenário distópico nos ajuda a enxergar algo profundamente bíblico: quando a justiça desaparece, o mundo vira exílio . Israel viveu isso. E, em muitos sentidos, nós também . O Salmo 137 nasce exatamente desse lugar: não apenas fora da terra, mas fora do eixo espiritual . “Às margens dos rios da Babilônia, nos assentávamos e chorávamos…” O choro não era só saudade geográfica. Era a dor de perceber que: A arrogância venceu o temor A religião substituiu a obediência A identidade foi trocada por segurança Antes de perder Jerusalém, Israel perdeu a ...