Minha vida não é minha?
📖 Texto bíblico e contexto
No capítulo 20 de Atos dos Apóstolos, o apóstolo Paulo está se despedindo dos presbíteros da igreja de Éfeso. É um momento solene: ele relembra como viveu entre eles, anuncia que enfrentará sofrimento em Jerusalém e afirma que sua vida não é o centro — sua missão em Cristo é.
Atos 20:17–24 (ARA)
> De Mileto, mandou a Éfeso chamar os presbíteros da igreja.
E, quando se encontraram com ele, disse-lhes: Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia,
servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram;
jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa,
testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus.
E, agora, constrangido em meu espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá,
senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações.
Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.
Nesse discurso, Paulo não despreza a vida; ele a submete ao propósito de Deus. Sua segurança não está em preservar-se, mas em permanecer fiel.
Eu confesso, para mim, é quase impossível não considerar a minha vida preciosa. Penso, antes de tudo, no amor de Deus ao entregar Seu Filho por mim. Por isso, sinto que devo zelar pela minha saúde, pelo meu corpo e pela minha vida — como quem cuida de algo que pertence a Ele e que foi alcançado por tão grande sacrifício.
Ao mesmo tempo, quando leio esse texto, sou confrontada por um sentimento incômodo: percebo o quanto ainda penso em mim mesma. Olho para a entrega de Paulo, para tudo o que sofreu por amor ao evangelho, e me vejo pequena. O que faço no meu trabalho e na minha família, por mais que exija esforço, não se aproxima do que ele viveu. Muitas vezes, servir é para mim uma honra e um prazer — não um sofrimento.
Isso me coloca em tensão interior: desejo viver com mais entrega, mas reconheço que ainda preservo muito de mim. Pergunto-me se estou realmente oferecendo minha vida ou apenas vivendo dentro de limites confortáveis.
Ainda assim, compreendo que cuidar da vida que Deus me deu não é idolatria quando esse cuidado nasce da gratidão. O desafio não está em valorizar a vida, mas em não colocá-la acima do propósito de Deus. Quero aprender a viver de modo que minha vida seja preciosa para Ele — e não apenas para mim.
Às vezes, quando leio na Bíblia declarações tão radicais ou quando encontro pessoas que vivem com essa entrega profunda, penso que talvez isso seja um chamado específico para alguns poucos — como se Deus, quando quisesse uma vida totalmente rendida, Ele mesmo a tomasse por completo. Mas percebo que esse pensamento pode ser uma forma sutil de fatalismo, quase uma justificativa elegante para a minha própria inércia. Em vez de responder ao convite diário de Deus com passos concretos de entrega, corro o risco de esperar por uma transformação irresistível que me dispense da responsabilidade de dizer “sim” nas pequenas renúncias de cada dia.
Concluo, então, que a solução bíblica não está entre desprezar a vida nem preservá-la como centro, mas em reconhecê-la como pertencente a Deus e, por isso, oferecê-la diariamente a Ele. A entrega que vejo em Paulo não é um heroísmo reservado a poucos, mas um caminho de fidelidade possível a todos, onde Deus produz o querer e o realizar enquanto eu respondo com obediência concreta, como ensina Filipenses 2:12–13. Assim, cuidar de mim deixa de ser egoísmo quando nasce da gratidão e se torna mordomia; e viver para Deus deixa de ser um ideal distante quando se traduz em passos simples e constantes:
1. Consagrar-me diariamente — apresentar a Deus minha vida, decisões e afetos.
2. Servir com fidelidade no que já recebi — família, trabalho, igreja, sem esperar circunstâncias extraordinárias.
3. Renunciar ao que compete com a vontade de Deus quando Ele mostrar — pequenas obediências concretas.
4. Confiar na ação do Espírito — crendo que Ele forma em mim o coração que deseja obedecer.
Desse modo, minha vida continua preciosa — não porque a retenho para mim, mas porque a entrego Àquele a quem ela pertence.
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