Extra ordinário
Quando a gente começa a caminhada com Cristo, conhece a vida de Jesus e a história de homens e mulheres que Deus levantou ao longo da história para realizar coisas extraordinárias. Abraão deixou sua terra (Gn 12:1-4). Moisés enfrentou Faraó (Êx 3). Elias confrontou reis. Paulo atravessou o mundo anunciando o evangelho (At 13–28). Ao olhar para essas histórias, é comum concluir que também fomos chamados para fazer grandes coisas, ir a lugares distantes, ousar de maneiras que mudem o curso da história.
Na maioria das igrejas por onde passei, essa era a mensagem que eu ouvia. "Deus tem algo grandioso para a sua vida." "Prepare-se para viver o extraordinário." "Saia da sua zona de conforto."
Embora Deus realmente chame algumas pessoas para missões incomuns, a Bíblia nunca promete que essa será a experiência de todos os cristãos. O Novo Testamento fala muito mais sobre fidelidade do que sobre notoriedade. Jesus afirmou: "Quem é fiel no pouco também é fiel no muito" (Lucas 16:10). E Paulo orientou os irmãos a terem como alvo "viver tranquilamente, cuidar do que é seu e trabalhar com as próprias mãos" (1 Tessalonicenses 4:11-12). Isso dificilmente seria considerado uma vida extraordinária pelos padrões atuais, mas é profundamente espiritual segundo as Escrituras.
Com o passar dos anos, a vida acontece. Trabalho, família, contas, responsabilidades, doenças, alegrias, frustrações. E surge um conflito silencioso: devo ser um bom mordomo daquilo que Deus já colocou nas minhas mãos hoje ou viver perseguindo algo que dizem que Ele fará amanhã? “Fazer a obra de Cristo”, eles dizem… que presunção! Nenhum de nós pode fazer o trabalho de Jesus. Nenhum de nós tem essa capacidade. Se pudéssemos fazer o trabalho de Cristo, Ele não precisaria ter morrido naquela cruz do jeito que morreu, em tanto sofrimento e dor.
Jesus inverte essa lógica. Quando perguntaram o que deveriam fazer para realizar as obras de Deus, Ele respondeu: "A obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou" (João 6:29). A primeira e maior obra não é a nossa, mas a de Cristo. Nosso papel não é salvar o mundo, nem sustentar o Reino com nossas forças; é confiar naquele que já consumou a obra na cruz (João 19:30), permanecer nele (João 15:4-5) e caminhar em obediência. As boas obras que realizamos não são um esforço para conquistar o favor de Deus, mas o fruto de uma vida que já foi reconciliada com Ele pela graça (Efésios 2:8-10). Talvez a maturidade cristã consista justamente em trocar a ansiedade de querer fazer algo grandioso pelo descanso de saber que Cristo já fez a obra essencial, e que nossa vocação é sermos fiéis onde Ele nos plantou. Que coisa boa e agradável 😌
A obra de Cristo tem um propósito central: reconciliar o ser humano com Deus. Por meio de sua morte e ressurreição, somos perdoados, justificados e aceitos por Deus, não por causa de nossos méritos, mas porque Cristo tomou sobre si a condenação que era nossa (Romanos 3:23-26; 2 Coríntios 5:21).
Desde a queda, o pecado separou a humanidade de Deus (Isaías 59:2). Como Deus é perfeitamente santo e justo, Ele não pode simplesmente ignorar o pecado. A justiça divina exige que o pecado seja julgado, e "o salário do pecado é a morte" (Romanos 6:23). No Antigo Testamento, Deus estabeleceu que a expiação fosse simbolizada pelo derramamento de sangue dos sacrifícios (Levítico 17:11; Hebreus 9:22), mas esses sacrifícios apenas apontavam para algo maior.
Por isso, o próprio Deus, em seu amor, enviou seu Filho. Jesus Cristo viveu sem pecado e ofereceu voluntariamente sua vida na cruz em nosso lugar, pagando a dívida que jamais poderíamos quitar. Assim, todo aquele que crê nele recebe perdão, é reconciliado com Deus e passa a desfrutar de uma nova vida (João 3:16; Romanos 5:8-11; 1 Pedro 3:18).
Essa tensão não é pequena. Porque existe uma maneira sutil de viver sempre esperando o próximo grande acontecimento espiritual, como se a vontade de Deus estivesse constantemente alguns passos à frente da vida presente.
Mas o próprio Jesus nos ensina outra perspectiva. "Não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações" (Mateus 6:34). Tiago também nos lembra que não sabemos o que acontecerá amanhã e que nossos planos devem sempre ser submetidos à vontade do Senhor (Tiago 4:13-15).
Mas não, a gente ouve algo sobre fazer coisas grandes na igreja e já sai querendo pegar empréstimo ou fazer arrecadação porta viajar posta a África e fazer missões.
Se você pode, vá. Mas isso não é a obra de Deus… a sua salvação, ou a deles, nunca dependeu ou dependerá disso.
Com o tempo, outra verdade vai amadurecendo dentro de nós: não dá para viver de futuro.
Descobrimos que fazemos planos, mas é Deus quem dirige os nossos passos (Provérbios 16:9). Percebemos que temos responsabilidade, mas não controle. Nossa vida está nas mãos do Senhor.
E talvez uma das descobertas mais libertadoras seja esta: Deus não precisa de nós.
Essa frase pode parecer dura num primeiro momento, mas ela é profundamente bíblica. Deus é plenamente suficiente em si mesmo. Paulo declarou em Atenas que Ele "não é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa" (Atos 17:24-25). Deus nunca dependeu de nós para cumprir Seus propósitos.
Ao mesmo tempo, esse mesmo Deus escolheu, por graça, nos incluir em Sua obra. Não porque precise, mas porque ama compartilhar conosco aquilo que está fazendo. Somos "cooperadores de Deus" (1 Coríntios 3:9), embaixadores de Cristo (2 Coríntios 5:20) e fomos criados "para boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas" (Efésios 2:10).
Perceber isso muda completamente a perspectiva.
A vida deixa de ser uma corrida desesperada em busca de um grande propósito escondido e passa a ser uma caminhada de fidelidade ao propósito que Deus já revelou hoje.
A rotina deixa de ser um obstáculo para a espiritualidade e passa a ser o próprio lugar onde ela acontece.
Trocar fraldas, preparar uma aula, trabalhar com excelência, servir a igreja sem reconhecimento, cuidar da casa, visitar alguém, ouvir um amigo, educar os filhos, amar o cônjuge, orar em secreto. Nada disso costuma aparecer em conferências ou testemunhos impactantes. No entanto, é exatamente nesse tipo de vida que a maior parte dos cristãos glorifica a Deus.
Paulo resume isso de maneira simples: "Quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus" (1 Coríntios 10:31). E também: "Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor" (Colossenses 3:23).
Talvez o maior engano da nossa geração seja imaginar que Deus está sempre preparando algo maior do que aquilo que estamos vivendo agora. Talvez o maior milagre seja aprender que a fidelidade de hoje já faz parte daquilo que Deus está realizando.
No Reino de Deus, o extraordinário raramente está nos holofotes. Quase sempre ele se esconde na perseverança de quem continua obedecendo quando ninguém está olhando.
No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja: "Qual é o grande plano de Deus para a minha vida?"
Talvez seja apenas:
"Estou sendo fiel àquilo que Deus já colocou diante de mim hoje?"

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