Entre a Terra e o Asfalto🌿
Outro dia reli Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak, e fui atravessada por uma sensação antiga, quase ancestral. Ele fala que o fim do mundo não é um evento futuro — ele já começou. E eu, sentada diante de uma tela fria, cercada de prazos, planilhas e compromissos, percebi que talvez tenha passado a vida inteira tentando adiar o meu próprio fim, esse que acontece em silêncio, quando nos afastamos da Terra que nos gerou.
Krenak fala da necessidade de sonhar o mundo novamente. Mas como sonhar quando o despertador toca às seis, o ônibus atrasa e o cartão de crédito vence na sexta? Penso nos meus ancestrais, que um dia deixaram suas terras em busca de sobrevivência, e percebo que repito esse gesto — não com os pés, mas com o espírito. Eles migraram pela necessidade de comer; eu, pela necessidade de continuar existindo neste mundo que mede valor em produtividade.
No auge da minha vida profissional, quando o sucesso se confunde com o cansaço, surge em mim o anseio de retorno: quero o cheiro da terra molhada, o silêncio do rio, o som das cigarras ao entardecer. Quero o tempo em que o tempo não tinha preço. E, paradoxalmente, percebo que para voltar às origens, preciso explorar justamente aquilo que me afastou delas: o capitalismo. Preciso trabalhar mais, juntar dinheiro, comprar um pedaço de chão onde eu possa, enfim, descalçar o asfalto e reencontrar a Terra.
É um nó difícil de desfazer: o mesmo sistema que me esgota é o que me permitirá libertar-me dele. Krenak talvez dissesse que esse desejo é um gesto de adiamento — um pequeno respiro na corrida insana. Talvez adiar o fim do mundo seja isso: plantar uma semente mesmo em meio ao concreto, sonhar uma aldeia dentro da cidade, manter viva a lembrança de que somos, antes de tudo, Terra.
E enquanto não volto para o campo, tento regar meus pensamentos, sonhar o impossível. Porque, no fundo, talvez o caminho de volta às origens comece dentro de nós — e a Terra, paciente, continua esperando.
Mas então me pergunto: e se o retorno à Terra não for apenas um lugar físico, mas também um modo de existir em comunhão?
Penso nas palavras de Jesus, naquele projeto de vida em que ninguém andava só. Ele reunia pessoas em torno de uma mesa, partilhava o pão e o sentido. Não havia muros, não havia propriedade. Havia presença, escuta, cuidado — tudo o que o mundo moderno transformou em luxo.
Talvez a vida em Igreja que Jesus planejou fosse isso: uma comunidade viva, não um prédio, mas um corpo que respira junto, sente junto, sofre e se alegra junto. Um espaço onde o amor é a terra fértil, onde o Reino de Deus começa a germinar antes mesmo da Sua volta.
Mas confesso que, às vezes, duvido.
Olho ao redor e vejo que até a fé, muitas vezes, se rende ao mesmo sistema que esvazia a alma. Igrejas viram empresas, templos viram vitrines, e o sagrado se torna produto. Então me pergunto: será possível viver esse ideal de comunhão e simplicidade ainda aqui, ou ele só florescerá plenamente quando Cristo voltar?
Talvez a resposta esteja entre o agora e o porvir — nesse intervalo em que tentamos fazer do nosso tempo um ensaio do eterno. Assim como Krenak nos convida a adiar o fim do mundo, Jesus nos convida a antecipar o Reino. São movimentos opostos e complementares: um pede pausa, o outro pede prática. Ambos pedem fé.
E assim sigo, entre o asfalto e o altar, entre o sonho de uma aldeia e o desejo de um Reino. Trabalhando para comprar um pedaço de terra, mas também para cultivar o solo invisível da alma — esse onde, quem sabe, o céu e a Terra se encontrem.
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