Quando o mundo vira deserto
O que restou foi um deserto onde:
- A violência se tornou normal
- O poder foi concentrado em poucos
- A água, o combustível e a esperança viraram instrumentos de dominação
Não há mais instituições confiáveis, nem memória coletiva saudável.
Quem tenta preservar valores é visto como fraco.
Quem mantém humanidade sofre perdas.
Esse cenário distópico nos ajuda a enxergar algo profundamente bíblico:
quando a justiça desaparece, o mundo vira exílio.
Israel viveu isso.
E, em muitos sentidos, nós também.
O Salmo 137 nasce exatamente desse lugar:
não apenas fora da terra, mas fora do eixo espiritual.
“Às margens dos rios da Babilônia, nos assentávamos e chorávamos…”
O choro não era só saudade geográfica.
Era a dor de perceber que:
- A arrogância venceu o temor
- A religião substituiu a obediência
- A identidade foi trocada por segurança
Antes de perder Jerusalém, Israel perdeu a humildade.
Por isso, Deus declara em Ezequiel:
“Remove o diadema, tira a coroa; o que é não será mais. Exalta o humilde e humilha o soberbo.”
(Ez 21:26)
O diadema (sacerdócio) e a coroa (realeza) foram retirados porque haviam se tornado símbolos vazios.
A Babilônia não está fora, está no meio
O maior escândalo do exílio não foi viver entre pagãos,
mas perceber que o coração já estava pagão antes da queda.
Por isso, manter a identidade no meio do povo de Deus é tão difícil.
- O erro vem com linguagem espiritual
- A injustiça vem coberta de liturgia
- A soberba vem com versículos
Quem discerne isso e decide permanecer fiel:
- Perde amigos
- Perde espaço
- Perde voz
- Perde proteção institucional
Mas ganha algo que não se compra: consciência diante de Deus.
As perdas do fiel: pequenas participações nos sofrimentos de Cristo
A Bíblia não chama essas perdas de fracasso.
Chama de comunhão nos sofrimentos de Cristo.
Jesus foi:
- Traído
- Abandonado
- Mal interpretado
- Silenciado
- Entregue pelo próprio sistema religioso
“Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.”
Quando escolhemos a verdade e pagamos um preço por isso, tocamos uma parte ínfima, mas real, desse caminho.
Não é glória imediata.
É cruz silenciosa.
O exílio como pedagogia divina
Deus não remove a coroa por crueldade,
mas para salvar a identidade do seu povo.
No exílio:
- Israel reaprende a orar
- Reaprende a ouvir
- Reaprende a esperar
É ali que nasce a esperança messiânica:
“Até que venha aquele a quem pertence o direito; a ele a darei.”
(Ez 21:27)
A retirada da coroa aponta para Cristo.
Estamos no exílio
Hoje, como Igreja e como indivíduos, precisamos reconhecer:
Estamos no exílio.
Não porque Deus nos abandonou,
mas porque muitas vezes o poder substituiu o temor,
e a forma substituiu a vida.
Choramos como Israel chorou. Não cantamos para agradar Babilônia. Guardamos nossa identidade, mesmo feridos.
Isso custa. Mas perder a identidade custaria mais.
Mad Max de novo: o deserto não é o fim
Em Mad Max, mesmo no deserto:
- Há quem preserve a água
- Há quem proteja os fracos
- Há quem recuse se tornar monstro para sobreviver
Essas pessoas sofrem perdas,
mas são elas que carregam o futuro.
Assim também no Reino de Deus.
Estamos no exílio.
O mundo parece um deserto espiritual.
O poder grita.
A humanidade rareia.
Mas Deus fará.
Ele:
- Restaurará o que foi removido
- Recolocará a coroa legítima
- Honrará os que não se venderam
- Transformará o deserto em caminho
“Os que semeiam com lágrimas, com júbilo ceifarão.”
Até lá, seguimos fiéis.
Não como sobreviventes desesperados,
mas como guardiões da identidade.
Porque no Reino de Deus,
quem perde por fidelidade, nunca perde em vão.
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