A igreja de Jesus

Entre instituições cristãs, distorções históricas e a reconstrução da fé 

Quando se fala em Igreja no mundo contemporâneo, é comum que a análise se concentre nas igrejas católicas e evangélicas, não por serem as únicas expressões religiosas existentes, mas por serem as que explicitamente se reconhecem como cristãs, afirmando seguir a pessoa e os ensinamentos de Jesus Cristo. Historicamente, ambas se originam do cristianismo primitivo, embora tenham desenvolvido estruturas, liturgias e compreensões distintas ao longo dos séculos. Além delas, existem outros grupos que se identificam como cristãos, como as igrejas ortodoxas — predominantes no leste europeu e no Oriente Médio —, que preservam uma tradição litúrgica antiga, fortemente sacramental e comunitária. Há ainda movimentos restauracionistas, como algumas comunidades independentes, que afirmam buscar um retorno direto ao modelo da igreja do Novo Testamento. Apesar dessas diferenças, todas alegam, em maior ou menor grau, vínculo com Cristo. A questão central, portanto, não é apenas a denominação, mas se a vivência da fé corresponde ao que Jesus efetivamente quis ao falar de Igreja.

A resposta bíblica começa no próprio Cristo. Em Mateus 16.18, Jesus afirma: “Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” A palavra usada no texto original é ekklesía, que significa “assembleia dos chamados para fora”. Isso indica que Jesus não instituiu primeiramente uma organização religiosa formal, mas um povo reunido em torno d’Ele, chamado a viver sob seu senhorio. Essa compreensão é reforçada quando Ele declara: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20), deslocando o centro da Igreja do espaço físico para a presença viva de Cristo entre as pessoas.

Jesus também deixa claro que o fundamento da Igreja não é o ativismo religioso nem a passividade ritual, mas a permanência n’Ele. Em João 15.5, Ele afirma: “Eu sou a videira, vós os ramos; quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” O fruto é consequência da comunhão, não da obrigação. Por isso, quando Jesus chama os doze, o evangelho de Marcos registra que Ele os escolheu “para que estivessem com Ele, e para os enviar a pregar” (Mc 3.14). A ordem é teologicamente significativa: estar com Cristo precede qualquer missão.

O livro de Atos apresenta como essa visão se concretiza na prática. Em Atos 2.42–47, a igreja primitiva persevera na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. Não há indícios de coerção institucional; o texto destaca que tudo acontecia “com alegria e singeleza de coração” (At 2.46). O crescimento da comunidade não é atribuído a estratégias humanas, mas à ação divina: “E o Senhor lhes acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos” (At 2.47). A Igreja nasce do Evangelho vivido, não da pressão por desempenho religioso.

Paulo aprofunda essa compreensão ao descrever a Igreja como corpo em 1 Coríntios 12. Ele afirma que “Deus dispôs os membros no corpo, cada um deles como lhe aprouve” (1Co 12.18), desmontando a lógica de uniformidade forçada. O apóstolo denuncia tanto a arrogância dos que fazem muito quanto a desvalorização dos que parecem fazer pouco, ao dizer: “Os membros do corpo que parecem mais fracos são indispensáveis” (1Co 12.22). Nesse modelo, ninguém é reduzido à sua utilidade funcional; todos são necessários porque pertencem ao corpo de Cristo.

Quando a Igreja se afasta desse paradigma, surgem distorções. Jesus critica o ativismo religioso vazio ao dizer: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15.8). Ao mesmo tempo, confronta a religiosidade tradicionalista que preserva ritos sem transformação: “Invalidais a palavra de Deus por causa da vossa tradição” (Mt 15.6). Assim, tanto o excesso de exigências quanto o silêncio que evita o confronto com o Evangelho revelam desvios do projeto original de Cristo.

Nesse cenário, a decisão de sair de uma comunidade após tentativas honestas de diálogo não é, necessariamente, sinal de infidelidade. O próprio Jesus orienta: “Se não vos receberem nem ouvirem as vossas palavras, ao sair, sacudi o pó dos pés” (Mt 10.14). Paulo e Barnabé agem da mesma forma quando encontram resistência obstinada (At 13.46–51). A Bíblia não glorifica a permanência em ambientes onde não há escuta, arrependimento ou espaço para a verdade. Ainda assim, a postura deve ser marcada pela paz: “Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos” (Rm 12.18).

Após a saída, surge a tensão entre procurar imediatamente outra igreja ou aguardar a direção de Deus. A Escritura rejeita tanto o isolamento permanente quanto a instabilidade espiritual. “Não deixemos de congregar-nos” (Hb 10.25), adverte o autor aos Hebreus, mas isso não implica pressa nem submissão irrefletida. Há tempos em que Deus chama ao silêncio e à escuta: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Sl 46.10). Esperar, biblicamente, não é passividade, mas discernimento. A confirmação divina costuma vir pela paz, não pela urgência: “E a paz de Cristo seja o árbitro em vosso coração” (Cl 3.15).

Diante disso, torna-se evidente que Jesus não instituiu a Igreja para ser um fardo, mas um espaço de vida. Ele não chamou seus discípulos para sustentar estruturas, mas para segui-lo em comunhão. Quando a Igreja exige mais do que anuncia graça, ocupa mais do que transforma e consome mais do que cuida, ela se distancia do Evangelho. Por isso, reconstruir a fé não começa com a busca imediata por uma nova instituição, mas com o retorno ao centro: Cristo.

Reconstruir a fé é reaprender a permanecer em Jesus sem culpa, sem pressa e sem medo. É permitir que Deus restaure a confiança ferida, alinhe motivações e devolva o descanso prometido por Cristo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). A fé reconstruída nasce do encontro, não da obrigação; da presença, não da pressão. E, a partir dessa reconstrução, a comunhão com a Igreja volta a ser fruto natural de uma vida que permanece n’Ele.

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