A indignação seletiva

 


Vendo os posts dos meus contatos nos últimos dias de véspera de eleições, cheios de apontamentos de erros, crimes fiquei pensando: qual dos dois é pior...

Um enorme pecado cometido por um homem não se torna menor porque outro homem cometeu um pecado ainda maior. Da mesma forma, o erro de um governante não se torna menos grave porque outro governante também errou. A questão é: por que, tantas vezes, a indignação moral parece depender menos dos princípios que defendemos e mais de quem estamos dispostos a condenar?

Tenho observado pessoas que condenam veementemente o ex-presidente Jair Bolsonaro por suas falas e omissões durante a pandemia de Covid-19. A discussão sobre a condução da crise sanitária é legítima e necessária. Milhares de famílias perderam seus entes queridos, e as decisões das autoridades públicas devem ser examinadas com seriedade. Nenhum governante está acima da crítica, e a responsabilidade pelo exercício do poder precisa ser apurada.

Entretanto, uma pergunta me incomoda: será que essa mesma disposição para cobrar responsabilidades se mantém quando os problemas envolvem políticos de outra orientação ideológica?

Quando pacientes morrem esperando atendimento, quando exames e cirurgias demoram além do aceitável, quando faltam condições para oferecer assistência adequada e quando recursos públicos não se transformam nos serviços de que a população precisa, onde está a mesma indignação? Por que determinadas mortes se tornam símbolos permanentes de condenação política, enquanto outras parecem desaparecer do debate público?

Não estou afirmando que todas essas mortes tenham a mesma causa, nem que toda falha do Sistema Único de Saúde seja responsabilidade direta do presidente da República. A gestão do SUS é compartilhada entre União, estados e municípios. Seria intelectualmente desonesto ignorar essa realidade. Mas também seria irresponsável usar a complexidade administrativa como desculpa para não cobrar os resultados de quem governa.

O governo federal tem responsabilidades concretas: financiar políticas nacionais, coordenar ações, estabelecer prioridades, fiscalizar a aplicação dos recursos sob sua responsabilidade e avaliar os resultados das políticas públicas. Quando essas atribuições não são cumpridas adequadamente, cabe à sociedade questionar, investigar e exigir correções.

E existem motivos concretos para essa cobrança.

Em junho de 2026, o Tribunal de Contas da União divulgou uma auditoria sobre o programa Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde. Segundo o órgão, em 2025, o componente ambulatorial do programa executou apenas 6,9% do que havia sido planejado por estados e municípios. A auditoria também identificou problemas no monitoramento das filas e na integração dos sistemas de informação. O programa recebeu R$ 3,3 bilhões destinados aos componentes cirúrgico e ambulatorial naquele ano.

Esse dado não prova que o governo tenha causado mortes específicas, mas revela uma dificuldade relevante: transformar planejamento e recursos públicos em atendimento efetivo. E é justamente isso que precisa ser discutido quando falamos de saúde pública. Não basta anunciar programas, divulgar investimentos ou apresentar números expressivos de orçamento. É necessário verificar o que chegou ao paciente, quais metas foram cumpridas e quantas pessoas continuam esperando.

A fiscalização do TCU sobre as contas federais de 2025 também apontou fragilidades no planejamento, na execução orçamentária e no acompanhamento de políticas públicas. Entre os problemas identificados estavam metas mal definidas, atrasos, dificuldades de avaliação e desalinhamento entre o que havia sido planejado e o que efetivamente foi executado.

Essas constatações merecem atenção porque dinheiro público não existe para alimentar discursos políticos. Ele existe para atender às necessidades da população. Quando os recursos são mal administrados, quando prioridades são definidas sem avaliação adequada ou quando programas não entregam os resultados esperados, o cidadão tem o direito de exigir explicações.

Também é necessário discutir a responsabilidade fiscal. O aumento da dívida pública, a pressão dos juros e a dificuldade de conciliar despesas e receitas limitam as escolhas do país. Não se trata de defender cortes indiscriminados em serviços essenciais, mas de exigir que o governo demonstre como financia suas políticas, quais resultados obtém e quais compromissos deixa para as próximas gerações.

Um governo pode gastar muito e ainda assim entregar menos do que deveria. Pode anunciar investimentos e não conseguir executá-los adequadamente. Pode criar programas bem-intencionados sem construir os mecanismos necessários para avaliar sua eficácia. É por isso que a avaliação de uma administração não pode depender apenas da propaganda oficial ou da simpatia que desperta em seus apoiadores.

Há, contudo, uma distinção fundamental: problemas de gestão não são automaticamente provas de corrupção, assim como suspeitas de irregularidades não equivalem a condenações. A corrupção precisa ser investigada e comprovada. Se houver desvio de recursos, favorecimento ilícito ou omissão criminosa, os responsáveis devem responder conforme a lei. Se houver incompetência administrativa, falha de planejamento ou desperdício, essas condutas também precisam ser identificadas e corrigidas, respeitando-se as diferenças entre cada situação.

O que não podemos aceitar é que a exigência de provas seja rigorosa para os adversários e negligenciada quando se trata dos nossos aliados. A mesma regra deve valer para todos.

O filho não é o pai

Essa discussão também precisa alcançar a maneira como avaliamos os candidatos à Presidência.

Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e candidato em 2026, não deve ser considerado culpado pelas falas e decisões do pai simplesmente por ser seu filho. Parentesco não é responsabilidade moral automática, muito menos prova de responsabilidade jurídica.

Ele deve ser avaliado por sua própria trajetória, por suas declarações, por suas decisões políticas, pelas propostas que apresenta e pela capacidade de responder às questões que afetam o país. Seu histórico pessoal e político pode e deve ser examinado, assim como o de qualquer outro candidato. O que não faz sentido é substituir essa avaliação pela transferência automática da culpa de um familiar.

É perfeitamente possível reconhecer erros graves na administração de Jair Bolsonaro e, ao mesmo tempo, avaliar separadamente o que Flávio Bolsonaro propõe e como pretende governar. Uma pessoa pode aprender com os erros de quem veio antes dela e adotar uma conduta diferente. Se isso ocorrerá, somente suas ações poderão demonstrar.

O mesmo critério deve valer para os demais candidatos: ninguém deveria ser absolvido por pertencer à família certa, ao partido certo ou ao grupo ideológico preferido.

E o atual presidente, quais resultados devemos cobrar?

Lula governou o Brasil de 2003 a 2010 e voltou à Presidência em janeiro de 2023. Não foram vinte anos consecutivos de governo, mas sua experiência anterior e a atual permitem avaliar sua trajetória política ao longo do tempo.

A pergunta não é se Lula é pessoalmente bom ou mau, se seus apoiadores são melhores ou piores do que os de seus adversários, nem se o governo anterior cometeu erros. A pergunta é o que sua administração tem entregado, quais problemas permanecem e quais compromissos não foram cumpridos.

É legítimo questionar a sustentabilidade das contas públicas, a qualidade dos serviços de saúde, a execução do orçamento, a eficiência dos programas federais, a transparência na utilização dos recursos e a capacidade de transformar arrecadação em benefícios concretos para a população.

Também é legítimo questionar os escândalos e as suspeitas de irregularidades que envolvam integrantes do governo, aliados ou familiares de autoridades. As investigações devem avançar sem interferência, e as conclusões precisam se apoiar em evidências. Não se deve condenar alguém sem provas, mas tampouco se deve usar a ausência de uma condenação definitiva como argumento para impedir questionamentos legítimos sobre transparência e responsabilidade política.

O fato de um governo manter programas sociais, elevar investimentos em determinadas áreas ou obter resultados positivos em alguns indicadores não elimina a obrigação de responder por suas falhas. Da mesma forma, identificar problemas não autoriza ignorar eventuais avanços. Uma avaliação séria considera os dois lados, compara resultados e verifica o que efetivamente mudou na vida das pessoas.

A permanência de um grupo político no poder também não constitui, por si só, prova de fracasso. O que importa é examinar o histórico de decisões, as condições encontradas, os resultados alcançados e as oportunidades de correção que foram aproveitadas ou desperdiçadas.

A cobrança deve ser proporcional às responsabilidades de cada autoridade e sustentada por dados. É assim que evitamos transformar a crítica política em mera disputa de narrativas.

A incoerência de quem escolhe a quem condenar

O problema que quero destacar não é a existência de pessoas que condenam Bolsonaro. É legítimo criticá-lo por suas decisões durante a pandemia e exigir que as responsabilidades sejam apuradas. O problema surge quando a mesma pessoa que exige rigor de um governante passa a relativizar falhas de outro porque simpatiza com suas ideias, seu partido ou suas promessas.

Se uma omissão é condenável quando praticada por um adversário, por que deixaria de merecer investigação quando envolve um aliado? Se a morte de pessoas por falhas evitáveis é motivo de indignação em um governo, por que não deveria ser motivo de cobrança em outro? Se a transparência é indispensável para um presidente, por que seria dispensável para o seguinte?

Não é necessário afirmar que todos os governos são iguais. Eles têm decisões, circunstâncias, responsabilidades e resultados diferentes. A coerência não exige equivalência entre situações distintas; exige que as diferenças sejam demonstradas, e não usadas como desculpa para abandonar os próprios princípios.

O mesmo vale para os candidatos. Não precisamos considerar Flávio Bolsonaro inocente de qualquer possível crítica para reconhecer que ele não herda automaticamente a culpa de Jair Bolsonaro. E não precisamos considerar Lula culpado de toda falha do Estado para cobrar dele as responsabilidades próprias de seu cargo.

A verdade não muda conforme o partido de quem precisa enfrentá-la.

Uma reflexão que também é moral

Do ponto de vista cristão, essa questão exige mais do que indignação: exige exame de consciência.

Jesus advertiu contra a hipocrisia de quem enxerga o cisco no olho do próximo, mas não percebe a trave no próprio olho (Mateus 7:3-5). Em Romanos 2:1, Paulo também confronta aquele que julga o outro enquanto pratica aquilo que condena.

Esses textos não ensinam que devemos abandonar o julgamento moral ou deixar de denunciar injustiças. Ensinam que não podemos usar a condenação do próximo como instrumento para esconder nossas próprias contradições. A correção do erro alheio não nos dispensa de examinar o nosso.

Isso também não significa que todos os pecados tenham a mesma gravidade ou produzam as mesmas consequências. Significa que a existência de um erro maior não transforma um erro menor em virtude. Tampouco o erro de um adversário nos concede licença para justificar o erro de alguém que admiramos.

A justiça exige discernimento, evidências e responsabilidade. A hipocrisia começa quando os princípios deixam de ser universais e passam a funcionar como ferramentas de conveniência.

Por isso, não quero uma sociedade que deixe de cobrar Bolsonaro, Lula ou qualquer outro governante. Quero uma sociedade capaz de cobrar todos eles, cada qual por suas próprias decisões e responsabilidades. Quero que a vida humana seja tratada com seriedade independentemente de quem esteja no poder, e que nenhuma família precise ver sua dor transformada em instrumento de propaganda enquanto outras famílias são esquecidas.

Um enorme pecado de um homem não se torna menor porque outro homem cometeu um pecado maior ainda. E o pecado de um adversário não torna virtuoso aquele que escolhemos defender.

No fim, a questão não é apenas quem merece nossa indignação. É se estamos dispostos a aplicar os mesmos princípios quando a verdade contraria nossas preferências.

Porque, quando a indignação depende de quem errou, já não estamos defendendo a justiça de maneira coerente. Estamos defendendo o nosso lado.

E a verdade não pertence a lado nenhum.

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