Devocional

 


Buscar o Reino é começar por Deus

“Mas buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.”
Mateus 6:33

É possível começar o dia com Deus e terminar o dia vivendo como se Ele não existisse.

É possível abrir a Bíblia pela manhã, fazer uma oração, ouvir um louvor, publicar uma fotografia da mesa cheia de livros cristãos e, poucas horas depois, alimentar a fofoca, falar mal de alguém, desejar o mal, agir com ira, cultivar a impaciência ou viver dominado pelo que a própria Bíblia condena.

Por isso, talvez precisemos fazer uma pergunta mais profunda: o que significa realmente buscar primeiro o Reino de Deus?

Buscar o Reino não significa simplesmente começar o dia com um devocional. O devocional pode ser uma excelente prática, mas ele não é o próprio Reino. Ler a Bíblia durante vinte minutos não significa que entregamos a Deus as outras vinte e três horas e quarenta minutos do nosso dia.

Jesus não disse simplesmente: “Comecem o dia buscando o Reino.” Ele disse: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça.”

O “primeiro” não se refere apenas à ordem cronológica. Refere-se à prioridade.

Buscar primeiro o Reino é começar por Deus e continuar com Deus.

É permitir que aquilo que aprendemos diante da Palavra alcance também a maneira como falamos, pensamos, trabalhamos, gastamos dinheiro, tratamos nossos familiares, reagimos quando somos contrariados, lidamos com nossos inimigos e tomamos decisões.

É fácil fazer um devocional quando ninguém está nos contrariando.

Mais difícil é praticar a Palavra quando somos feridos.

É fácil falar sobre amor cristão quando estamos entre pessoas que concordam conosco. Talvez por isso tantos crentes insistem que frequentemos a igreja…

Mais difícil é permanecer em amor quando precisamos confrontar uma injustiça.

É fácil publicar uma frase sobre verdade.

Mais difícil é permanecer ao lado da verdade quando ela ameaça nossa reputação.

Uma mesa cheia de livros não é necessariamente uma vida cheia de Deus

Há algo particularmente interessante em nossa época: podemos transformar até a devoção em imagem.

Uma Bíblia aberta. Um café. Um caderno de anotações. Livros cristãos ao redor. Uma fotografia cuidadosamente preparada. Uma frase espiritual.

Nada disso é necessariamente ruim. O problema começa quando a aparência de devoção substitui a própria devoção.

Podemos conhecer muitos livros e continuar sem praticar aquilo que lemos.

Podemos estudar teologia e continuar sendo cruéis.

Podemos conhecer doutrinas corretas e continuar alimentando orgulho.

Podemos falar sobre santidade e continuar cultivando pecados escondidos.

Podemos conhecer profundamente a linguagem cristã e, ainda assim, não permitir que Cristo governe nossa vida.

Tiago é direto:

“E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes.” (Tiago 1:22)

O problema nunca foi possuir conhecimento. O problema é quando o conhecimento não produz obediência.

A Bíblia não foi dada para nos transformar em pessoas capazes de falar sobre Deus. Foi dada para nos conduzir a uma vida submetida a Deus.

Depois do devocional, quem governa?

Essa talvez seja uma pergunta desconfortável, mas necessária:

Depois que você fecha a Bíblia, quem governa o restante do seu dia?

Se, depois do devocional, continuamos alimentando a fofoca, o que exatamente aprendemos?

Se continuamos amaldiçoando pessoas, o que aconteceu com aquilo que acabamos de ler sobre o amor?

Se alimentamos pensamentos de vingança, o que aconteceu com o ensino de Cristo sobre nossos inimigos?

Se somos dominados pela ira diante de qualquer contrariedade, onde está o domínio próprio?

Se somos governados pela gula, pela vaidade, pela ganância ou pela necessidade constante de aprovação, será que realmente estamos buscando primeiro o Reino?

Isso não significa que um cristão que luta contra essas coisas seja necessariamente hipócrita. O cristão verdadeiro também tropeça, peca, arrepende-se e precisa lutar diariamente contra a carne.

A questão é outra.

Ele está lutando contra o pecado ou fazendo as pazes com ele?

Há uma enorme diferença entre alguém que cai e se arrepende e alguém que utiliza a religião como uma espécie de cobertura para continuar vivendo deliberadamente de maneira contrária àquilo que professa.

Quando o silêncio deixa de ser prudência

Existe ainda outra dimensão da busca pelo Reino: a justiça.

Jesus não disse apenas para buscar o Reino. Disse para buscar também “a sua justiça”.

Isso significa que nossa fé não pode ser indiferente diante daquilo que é justo ou injusto.

Há situações em que a prudência exige silêncio. Nem toda discussão precisa ser comprada. Nem toda provocação merece resposta. Nem todo conflito precisa ser alimentado.

Mas existe também um silêncio que não nasce da prudência.

Nasce do medo.

Medo de perder amigos.

Medo de ser rejeitado.

Medo de ser excluído.

Medo de comprometer a própria imagem.

Medo de perder uma posição.

Medo de que descubram que estamos ao lado de alguém considerado inconveniente.

E então fingimos que não vimos.

Afastamo-nos para não assumir responsabilidade.

Não abrimos a boca para não nos comprometer.

Preferimos preservar nossa reputação a enfrentar uma situação injusta.

Nesse momento, precisamos perguntar: isso é prudência ou covardia?

Provérbios 31:8-9 apresenta uma orientação muito diferente:

“Abre a tua boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Abre a tua boca, julga retamente e faze justiça aos pobres e aos necessitados.”

A fé bíblica não nos autoriza a usar a espiritualidade como esconderijo da responsabilidade.

A verdade pode ter um preço

Uma das razões pelas quais algumas pessoas se calam é porque a verdade pode custar caro.

Defender alguém pode significar perder amizades.

Questionar uma injustiça pode significar ser mal interpretado.

Recusar-se a participar de determinada prática pode significar ser excluído.

Dizer “isso está errado” pode fazer com que deixemos de ser populares.

E, quando percebemos o preço, surge a tentação de permanecer neutros.

Mas a fidelidade cristã nunca foi apresentada como um caminho sem custos.

João Batista confrontou Herodes e pagou um preço altíssimo.

Os profetas falaram quando seria muito mais conveniente permanecer em silêncio.

Os apóstolos anunciaram Cristo mesmo diante da oposição.

E o próprio Jesus foi rejeitado e crucificado.

Isso não significa que todo cristão precise transformar sua vida em uma sucessão de confrontos. Coragem cristã não é agressividade.

A Bíblia não nos chama a ser pessoas briguentas, arrogantes ou incapazes de ouvir.

Ela nos chama a falar “a verdade em amor” (Efésios 4:15), com mansidão e temor (1 Pedro 3:15).

Portanto, existe uma diferença entre coragem e imprudência.

Existe uma diferença entre defender a verdade e gostar de conflitos.

Existe uma diferença entre confrontar o pecado e humilhar pecadores.

Mas também existe uma diferença entre prudência e covardia.

O que realmente está em primeiro lugar?

Talvez seja aqui que Mateus 6:33 se torne ainda mais profundo.

Buscar primeiro o Reino não significa simplesmente reservar os primeiros minutos do dia para Deus.

Significa colocar Deus no primeiro lugar quando o primeiro lugar custa alguma coisa.

Quando a verdade ameaça nossa reputação.

Quando perdoar fere nosso orgulho.

Quando fazer justiça pode nos trazer problemas.

Quando precisamos admitir que estamos errados.

Quando ninguém está olhando.

Quando poderíamos falar mal de alguém e ninguém descobriria.

Quando poderíamos nos vingar e ninguém nos impediria.

Quando seria mais confortável seguir a multidão.

Quando obedecer a Deus significa dizer “não” àquilo que nosso próprio coração deseja.

É nesses momentos que descobrimos o que realmente ocupa o primeiro lugar.

Porque é relativamente fácil dizer que Deus é prioridade quando obedecê-lo não nos custa nada.

A questão é: o que acontece quando buscar o Reino entra em conflito com aquilo que queremos preservar?

Começar por Deus e terminar o dia com Deus

Talvez o verdadeiro desafio do devocional não seja apenas abrir a Bíblia pela manhã.

É levar a Palavra conosco depois que a Bíblia for fechada.

É deixar que o que lemos governe a próxima conversa.

A próxima decisão.

A próxima reação.

O próximo pensamento.

A próxima oportunidade de fazer o que é certo.

O devocional não deveria ser o momento em que cumprimos nossa obrigação com Deus para depois retomarmos uma vida independente dele.

Deveria ser um momento em que somos novamente lembrados de quem governa nossa vida.

Porque podemos começar o dia lendo sobre a verdade e terminar o dia fugindo dela.

Podemos começar falando sobre amor e terminar ferindo alguém com nossas palavras.

Podemos começar orando por justiça e depois escolher o silêncio quando a justiça exige nossa voz.

Podemos começar buscando o Reino e, poucas horas depois, colocar no trono a nossa reputação, nosso conforto, nosso medo ou nossa vontade.

Por isso, a pergunta não é apenas:

“Você fez seu devocional hoje?”

A pergunta é:

“Depois que você terminou seu devocional, quem continuou governando sua vida?”

Buscar o Reino de Deus é começar por Deus.

Mas é também continuar com Deus.

É permitir que a Palavra que lemos pela manhã permaneça conosco quando surgirem as oportunidades de pecar, quando formos contrariados, quando precisarmos escolher entre conforto e justiça, entre aprovação e verdade, entre silêncio conveniente e responsabilidade.

Porque buscar o Reino de Deus em primeiro lugar não é construir a aparência de alguém que conhece Deus.

É viver como alguém que realmente se submeteu ao governo de Deus.

E talvez essa seja a pergunta que deveríamos levar para hoje:

Se seguir a verdade me fizer perder aprovação, amizade, posição ou conforto, continuarei

 buscando primeiro o Reino de Deus?

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