Pluribus: comunhão, interioridade e o risco de um cristianismo sem encontro


A série Pluribus, disponível na Apple TV+, apresenta uma inquietação profundamente atual: como viver a unidade em um mundo marcado pela fragmentação? Em meio a identidades múltiplas, vínculos frágeis e relações cada vez mais utilitárias, a narrativa conduz o espectador a refletir sobre pertencimento, responsabilidade e sentido. Ainda que não seja uma obra explicitamente religiosa, Pluribus toca em uma questão central à fé cristã: o que significa, de fato, estar em comunhão?

A série não responde a essa pergunta de forma direta. Ela a encena por meio de personagens que lidam, cada um à sua maneira, com o dilema entre preservar a própria identidade e se comprometer com o outro. Entre eles, Carol se destaca como um espelho incômodo da espiritualidade contemporânea.


Carol: discernimento ou fechamento?

Carol é apresentada como alguém que observa mais do que se expõe, que seleciona cuidadosamente suas relações e que demonstra certo cansaço diante das dinâmicas coletivas. Sua postura não é agressiva nem indiferente, mas reservada, por vezes desconfiada. Ela parece buscar coerência, sentido e verdade — ainda que isso a coloque à margem de alguns vínculos.

À luz do cristianismo, esse comportamento pode ser lido de duas formas.

Por um lado, há algo profundamente evangélico em não se diluir no coletivo apenas para pertencer. Jesus nunca se entregou às expectativas das multidões quando estas distorciam a verdade (João 2:24). O discernimento de Carol — sua recusa a relações superficiais ou manipuladoras — dialoga com a sabedoria bíblica:

“Não deis aos cães o que é santo” (Mateus 7:6).

Por outro lado, o Evangelho também alerta para o risco de um recolhimento que se transforma em fechamento do coração. Quando a autoproteção impede o encontro, a escuta e o serviço, o recolhimento deixa de ser espiritual e passa a ser defensivo. A pergunta cristã que se impõe à postura de Carol é:

esse distanciamento a torna mais capaz de amar ou apenas mais protegida de sofrer?


Em contraste com Carol, outros personagens em Pluribus demonstram forte desejo de pertencimento. Eles se adaptam, se moldam e, por vezes, silenciam convicções pessoais para manter-se aceitos no grupo. Há cooperação, mas nem sempre há verdade. Há proximidade, mas pouca intimidade real.

Essa postura também encontra paralelo no cristianismo — e igualmente um alerta. A fé cristã é comunitária, mas não é conformista. O apóstolo Paulo adverte:

“Não vos conformeis com este mundo” (Romanos 12:2).

Quando a busca por unidade elimina o discernimento, a comunhão se esvazia e se torna apenas convivência funcional. A Igreja primitiva vivia a comunhão não por conveniência, mas por compromisso com a verdade e com o amor (Atos 2:42–47).


Interioridade cristã não é fuga

Tanto Carol quanto outros personagens de Pluribus revelam extremos conhecidos da experiência humana: de um lado, o afastamento cauteloso; de outro, a dissolução no coletivo. O cristianismo não legitima nenhum dos dois como caminho pleno.

Jesus viveu a alternância entre:

  • recolhimento e envio,
  • silêncio e encontro,
  • oração e serviço.

“Vinde à parte, para um lugar deserto, e repousai um pouco” (Marcos 6:31).
Pouco depois, Ele retorna às multidões.

A interioridade cristã não é fuga do outro, mas preparação para o amor verdadeiro.

Ao acompanhar os dilemas de Carol e dos demais personagens, Pluribus nos obriga a um exame honesto:
estamos evitando relações por sabedoria ou por medo?
estamos juntos por amor ou por necessidade de pertencimento?

Santo Agostinho afirmava:

“Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”

Mas esse repouso em Deus nunca nos retira da responsabilidade com o outro. Dietrich Bonhoeffer lembrava que a comunhão cristã é dom, não construção humana, e que amar o irmão real — e não o ideal — é parte essencial do discipulado.

Pluribus não oferece personagens-modelo, mas espelhos. Carol não representa o erro, assim como os outros não representam a verdade plena. Todos revelam tensões que o cristianismo conhece bem.

A fé cristã não chama à solidão orgulhosa nem à comunhão vazia. Ela chama a um caminho mais estreito e mais exigente: amar com discernimento, permanecer aberto, mesmo correndo o risco de ser ferido.

No fim, a pergunta que a série nos deixa é a mesma que o Evangelho nos faz:

estamos dispostos a amar de verdade — ou apenas a nos proteger?



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