A verdade é um leão
Muitas vezes sou acusada de ser “grossa” simplesmente por falar de forma verdadeira e aberta. Não pretendo — e nem poderia — ter a verdade absoluta, mas procuro expor as coisas como as vejo, com sinceridade. E isso, para alguns, soa como dureza.
Mas a verdade é um leão. Ela não precisa de adornos nem de defesas humanas. Quando libertada, se impõe por si mesma.
No meio cristão, deveria ser ainda mais natural a prática da sinceridade, mas infelizmente, muitas vezes, encontramos hipocrisia, ocultação, minimização de problemas e até falsidade. Tudo isso por medo de “ofender” ou de causar desconforto. No entanto, esconder a verdade não é amor — é negligência.
E falar a verdade em amor não significa usar diminutivos, falar mansinho e baixinho, como se fosse possível maquiar as situações. Essas estratégias são apenas formas de minimizar os problemas. O amor verdadeiro não se expressa no tom de voz, mas no desejo de edificar, corrigir e restaurar.
Reconheço também que posso, sim, ser grossa em algumas situações, e preciso admitir isso. Se minha forma de falar fere os mais sensíveis, devo buscar mudança, porque parte do amor cristão é considerar o outro. No entanto, ao olhar para a Bíblia, não vejo uma condenação direta à grosseria, mas sim à mentira, ao falso testemunho e aos maus pensamentos. A Escritura nos alerta contra a hipocrisia e a falsidade, nunca contra a franqueza. Portanto, ainda que eu precise aprender a temperar minhas palavras, não posso abrir mão da verdade em favor de uma aparência de delicadeza.
A Palavra de Deus é clara: “Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros” (Efésios 4:25). “Os lábios mentirosos são abomináveis ao Senhor, mas os que praticam a verdade são o seu deleite” (Provérbios 12:22). Não há espaço para falsidade entre irmãos. Ao mesmo tempo, também nos ensina: “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira” (Provérbios 15:1). E nos lembra: “Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar” (Tiago 1:19).
A Bíblia condena grosseria?
A palavra “grosseiro” como usamos hoje não aparece literalmente na Bíblia, mas o ensino bíblico toca em aspectos que podem se relacionar:
Colossenses 4:6 – “A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um.”
Efésios 4:29 – “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem.”
Provérbios 15:1 – “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira.”
➡️ Ou seja: a Escritura condena a palavra ofensiva, torpe, sem propósito de edificação. Isso pode incluir a “grosseria” quando é usada para ferir ou humilhar.
Quando ser verdadeiro é ser considerado grosso?
Aqui entra a nuance: a franqueza pode ser confundida com grosseria. Jesus, por exemplo, falou de forma direta e dura em muitos momentos:
Chamou os fariseus de “hipócritas” e “sepulcros caiados” (Mateus 23:27).
Chamou Herodes de “raposa” (Lucas 13:32).
Confrontou Pedro dizendo: “Para trás de mim, Satanás!” (Mateus 16:23).
➡️ Essas falas eram verdadeiras e diretas, mas certamente poderiam ser vistas como “grosseiras” pelos padrões humanos.
O que a Bíblia realmente condena:
A mentira (Efésios 4:25).
O falso testemunho (Êxodo 20:16)
A maledicência (Tiago 4:11)
Palavras torpes ou sem edificação (Efésios 4:29).
A Bíblia não condena a franqueza. Ela orienta que a verdade seja dita com amor (Efésios 4:15). Se a forma soa grossa, precisamos avaliar o coração da intenção: foi para edificar ou apenas para descarregar?
✨ Conclusão:
A covardia em falar a verdade traz sérias consequências para o corpo de Cristo. Quando nos calamos por medo de desagradar, por receio de conflitos ou por vaidade, permitimos que erros, injustiças e falsidades se perpetuem. A omissão cria divisões, fortalece hipocrisia e enfraquece a maturidade espiritual da comunidade. A Bíblia nos adverte que “aquele que encobre as suas transgressões nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia” (Provérbios 28:13). Assim, o silêncio por covardia não protege ninguém; pelo contrário, fragiliza a igreja, permitindo que o mal se instale e impedindo que a verdade — o leão — cumprimente sua obra de libertação e correção.
A Bíblia não condena a franqueza, mas pede sabedoria no falar.
A “grosseria” só é pecado quando é usada com desprezo, insulto ou ódio.
Muitas vezes, ser verdadeiro será confundido com ser grosso — foi assim até com Jesus.
A maturidade espiritual exige coragem para falar e também para ouvir no tempo oportuno. Falar a verdade em amor é obedecer à Escritura — sem mentir, sem disfarçar, mas também sem ignorar a necessidade de edificação. Sei que a franqueza incomoda, mas creio que ser verdadeiro é sempre melhor do que cultivar aparências. O leão da verdade pode até assustar, mas também traz libertação.
Por fim, é preciso reconhecer que nem todos estão dispostos a ouvir a verdade. Há quem se fira com qualquer crítica, não aceite ser exposto em seus equívocos nem admita correção. Nesses casos, a Bíblia nos ensina que há tempo de falar e tempo de calar (Eclesiastes 3:7). O nosso papel é obedecer e falar a verdade em amor, mas sem impor, pois quem convence é o Espírito Santo. Quando a palavra não é recebida, o silêncio também pode ser uma forma de sabedoria e confiança em Deus, que sabe o momento certo de tratar cada coração.
Também percebo que, quando os teimosos resistem à correção, Deus mesmo se encarrega de expor a verdade. As situações parecem se repetir, uma, duas, muitas vezes, até que não reste escapatória. A verdade, como um leão, acaba devorando todas as máscaras, e só sobrevive quem se rende a ela. Foi assim com Faraó, que resistiu à ordem de libertar Israel até que as pragas se multiplicaram (Êxodo 7–12). Foi assim com Jonas, que tentou fugir de sua missão, mas acabou lançado ao mar e engolido pelo grande peixe, até se submeter (Jonas 1–2). Foi assim com Pedro, que negou Jesus três vezes e precisou encarar o olhar do Mestre para ser quebrantado (Lucas 22:61). Deus não é injusto: Ele sempre dá oportunidade para arrependimento. Mas quando resistimos, Ele repete as lições até que a verdade triunfe e revele quem realmente somos.
Cuidado para não ser devorado...
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