A Expressão como caminho de aprendizagem: Linguagens, Emoção e Criação
Costumo refletir sobre os chamados “métodos de ensino” em Língua Portuguesa, embora prefira vê-los como métodos de ensino de linguagens. Essa escolha não é apenas terminológica, mas conceitual: parte da convicção de que o ensino da língua deve contemplar as múltiplas formas de expressão — verbal, não verbal, gestual, visual e simbólica. Entendo que a linguagem é vida, e ensinar é, antes de tudo, possibilitar que o outro se expresse.
A noção de linguagens múltiplas aproxima-se das reflexões de Mikhail Bakhtin, para quem a linguagem é essencialmente dialógica — ela se forma no encontro entre sujeitos, na interação social. Quando o aluno escreve, fala ou se expressa por meio de imagens e gestos, ele não apenas comunica, mas constrói sentidos compartilhados, respondendo ao mundo e à palavra do outro.
Nesse sentido, a escrita e a leitura não devem ser atividades isoladas ou mecânicas. Quando incentivo meus alunos a transformar aquilo que leem em novas produções, estou promovendo o que Paulo Freire chamaria de “prática de liberdade”. Para Freire (1996), o ato de ler o mundo precede o de ler a palavra; e escrever é um modo de resignificar o vivido, inserindo-se criticamente na realidade. A escrita, portanto, é um exercício de autonomia e emancipação.
Também vejo, na produção autoral, uma oportunidade de mobilizar dimensões afetivas e cognitivas do aluno. Muitos encontram dificuldade em expressar o que sentem, o que me faz pensar na contribuição de Henri Wallon, que defende a integração entre emoção, movimento e pensamento no processo educativo. Quando um estudante não consegue escrever, talvez o bloqueio não seja apenas linguístico, mas emocional — uma marca que o silencia.
Nesses casos, acredito que o ensino pode assumir um papel terapêutico e humanizador, ajudando o aluno a se reconciliar com sua própria voz. Lev Vygotsky também reforça que a linguagem é mediadora do pensamento: é por meio dela que o sujeito organiza o mundo interno e o transforma em ação. Assim, ao criar espaços para a expressão — seja por texto, oralidade ou arte — o professor amplia o campo de desenvolvimento do aluno, construindo pontes entre o interno e o social.
Essa visão também dialoga com Dermeval Saviani e sua Pedagogia Histórico-Crítica, ao defender que o conhecimento deve ser apropriado pelo estudante de modo ativo, para transformar a realidade. Ao unir leitura e criação, ensino e autoria, proponho justamente essa passagem do saber acumulado ao saber reinventado. O conhecimento, como escrevi, só tem sentido quando é aplicado e recriado: é ele que garante não apenas nossa sobrevivência, mas nossa evolução cultural e humana.
Quando aprendemos a nos expressar melhor, aprendemos também a conviver melhor. A escrita, a fala e todas as formas de linguagem são caminhos de autoconhecimento e empatia. Observo, contudo, que muitos ainda enfrentam bloqueios e dificuldades que limitam essa expressão — talvez marcas emocionais, talvez barreiras sociais.
Por isso, acredito que ensinar Língua Portuguesa é muito mais do que ensinar gramática: é ensinar o sujeito a existir pela linguagem. E se, como sugere Bakhtin, toda palavra é um ato de resposta, que o ensino das linguagens seja, então, uma resposta sensível ao humano — um convite para que cada um descubra e reconstrua a própria voz.
Referências (sugestivas para o ensaio)
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BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
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FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
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SAVIANI, Dermeval. Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações. Campinas: Autores Associados, 2012.
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VYGOTSKY, Lev. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
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WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. Lisboa: Estampa, 1975.
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