Padrão de quem?

Esses dias me deparei com postagens de jovens que decidiram largar tudo: emprego fixo, faculdade, apartamento, estabilidade. Optaram por viver como nômades, morando em motorhomes, viajando pelo mundo com o mínimo necessário, buscando liberdade, propósito, experiências reais. À primeira vista, pode parecer loucura ou rebeldia — mas confesso que aquilo me fez pensar. Até que ponto estamos vivendo porque escolhemos, e não apenas porque estamos seguindo um roteiro pronto que nos foi entregue desde cedo? Será que essa busca por uma vida fora do padrão não revela, de alguma forma, uma sede por algo mais verdadeiro, mais livre — talvez até mais espiritual do que imaginamos?


Eu conheço gente que só de ver uma foto dessa já treme. Uma casa simples, um chão de terra, uma rede armada entre duas árvores, uma panela no fogo de lenha, uma roupa estendida num arame. Gente que olha pra isso com pena, como se fosse sinônimo de atraso, de falta, de sofrimento.

Mas será que é mesmo?

Tem quem não sabe viver sem o conforto da casa com ar-condicionado, da cama macia, do carro na garagem, da rotina previsível e protegida. Acredita que o conforto é o auge da realização. Mas... e se não for?

E se o conforto não for sinônimo de vida plena, mas só uma forma disfarçada de anestesia?

Jesus mesmo não escolheu o caminho do conforto. Ele nasceu na simplicidade, viveu sem ter onde reclinar a cabeça (Lucas 9:58), cercado de gente comum, gente rejeitada, gente quebrada. Ele se moveu em meio à poeira das estradas, não nos tapetes vermelhos do templo. O Filho de Deus veio e viveu com pouco — não porque era obrigado, mas porque era livre. Porque sabia que o valor da vida não está nas posses nem no status, mas em cumprir o propósito.

E quando a gente olha pra Ele, precisa começar a se perguntar:

  • Eu estou buscando conforto ou propósito?

  • Eu estou seguindo a Jesus ou um ideal de vida confortável e controlado que o mundo (e até algumas igrejas) vendem como “vontade de Deus”?

Porque, às vezes, o conforto paralisa. E o desconforto acorda. Às vezes, o pouco nos ensina a valorizar tudo. Às vezes, a ausência de estrutura revela a presença de Deus.

Conforto não é pecado. Mas viver por ele, sim, pode ser um engano.

Talvez a melhor maneira de viver não seja a mais confortável. Talvez a melhor maneira de viver seja aquela em que a gente ama, serve, escuta, reparte, aprende, desapega, se lança e confia. E essa maneira, muitas vezes, vai nos tirar do lugar seguro.

Mas se é pra estar no centro da vontade de Deus, que assim seja.



Mas e então, como saber se estamos seguindo a vontade de Deus ou apenas reproduzindo um padrão que o sistema impôs? Essa pergunta me cutuca de vez em quando. A Bíblia nos mostra que Deus não criou seres humanos em série, com uma única rota de vida obrigatória para todos. É verdade que há princípios eternos que não mudam, como amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a nós mesmos (Mateus 22:37-39). Mas dentro disso, há muitos caminhos, muitas formas de viver. 

Jesus, nosso modelo, não se encaixava nos padrões sociais da época. Ele era solteiro, não tinha uma carreira no sentido tradicional, não acumulou bens e desafiava constantemente as convenções religiosas e sociais. E ainda assim (ou justamente por isso), Ele cumpriu integralmente a vontade do Pai. Isso nos mostra que seguir a vontade de Deus não é necessariamente seguir o "roteiro" que nos ensinaram como sendo o ideal: estudar, casar, ter filhos, trabalhar, consumir, morrer. Esses podem ser caminhos legítimos, sim, mas não são a única rota. 

E mais importante: não são garantias de plenitude. Paulo nos alerta em Romanos 12:2: 
"Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus."

 Isso já mostra que o caminho da fé não é simplesmente se encaixar. É discernir, questionar, renovar o entendimento. A Bíblia também não é um "manual de instruções" no sentido moderno e reducionista da palavra — como se ela trouxesse respostas prontas para todas as decisões cotidianas. Ela é, antes, uma revelação progressiva de quem Deus é, de como Ele se relaciona com a humanidade, e de como Ele deseja que vivamos em liberdade e responsabilidade. 

Como está em 2 Timóteo 3:16-17, ela é "inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça." Ela não é uma prisão. É uma luz para o caminho (Salmo 119:105). Sim, Deus nos deu inteligência, sensibilidade e Espírito para discernir. E isso implica em viver com consciência, não no automático. Implica em buscar a vontade de Deus em oração, na Palavra, no conselho de pessoas piedosas, e também no íntimo do nosso espírito, onde o Espírito Santo testifica. No fundo, não se trata de viver "certo" no sentido social, mas de viver em obediência, mesmo que isso pareça loucura para o mundo (1 Coríntios 1:27). O que o mundo chama de sucesso, Jesus pode chamar de perdição. 

E o que o mundo chama de fracasso, Jesus pode chamar de fidelidade. Então, quando a vida muda de rumo, quando os planos desandam, quando a gente perde o controle... talvez ali esteja uma das maiores oportunidades de confiar. De deixar de seguir padrões fixos e começar a seguir uma Pessoa: Cristo. Talvez o único "jeito certo" de viver seja esse: ouvir a voz do Bom Pastor e andar com Ele, mesmo sem saber exatamente para onde o caminho vai dar. Porque onde Ele está, aí sim, é o nosso lugar.

Essa reflexão é profunda e honesta — e, sim, incômoda para muita gente. Mas isso é bom. A fé precisa passar por esse lugar de verdade.

Tocar nesse assunto no meio evangélico implica ouvir que você está “arrumando uma desculpa para viver como quiser”, isso revela uma visão moralista e reducionista do Evangelho. O Evangelho de Jesus nunca foi sobre “se comportar” para ganhar aprovação. Foi — e continua sendo — sobre ser transformado por uma relação viva com Deus. Essa relação transforma não só o que fazemos, mas por que e como fazemos.

1. Quem impôs as regras?

Essa pergunta é crucial. Muitas “regras” que hoje se pregam em certos meios religiosos vêm mais de tradições humanas, culturas específicas ou interpretações limitadas da Bíblia do que da própria Escritura. Jesus, aliás, confrontou isso diversas vezes. Ele disse:

“Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens.”
Mateus 15:8-9

Jesus questionou fariseus e mestres da lei por transformarem mandamentos humanos em doutrina divina. Ele expôs a hipocrisia de quem coloca fardos pesados sobre os outros, mas não os carrega (Mateus 23:4).

2. Por que seguir o que uma pessoa diz que é certo, se a Bíblia não aponta uma forma única de viver?

Exatamente! A Bíblia não apresenta um único modelo de vida. Veja alguns exemplos:

  • Jesus era solteiro, sem bens, itinerante.

  • Paulo, apóstolo, também não se casou e viveu uma vida cheia de privações, longe de conforto.

  • José, do Egito, teve uma carreira política.

  • Débora, juíza de Israel, era líder em um contexto patriarcal.

  • Lídia, no Novo Testamento, era empresária e abriga a igreja em sua casa.

  • Maria, mãe de Jesus, foi chamada para um propósito que mudou toda a história, mas isso envolveu muita dor, renúncia e fé.

Todos diferentes, todos instrumentos de Deus.

3. Que formas a Bíblia aponta, então?

A Bíblia aponta princípios de vida, não moldes fixos. Entre esses princípios estão:

  • Amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo (Mateus 22:37-39)

  • Viver com justiça, misericórdia e humildade (Miquéias 6:8)

  • Produzir frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade... (Gálatas 5:22-23)

  • Buscar o Reino de Deus em primeiro lugar (Mateus 6:33)

  • Ser guiado pelo Espírito e não pela carne (Romanos 8)

Esses princípios moldam o caráter, não apenas o comportamento externo. Eles nos libertam do controle social e religioso opressor, mas nos chamam a viver em integridade diante de Deus.

E sim, viver assim pode parecer “fazer o que quiser” — mas, na verdade, é escolher fazer o que Deus quer em liberdade, e não por medo, pressão ou aparência. Como diz 2 Coríntios 3:17:

“Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade.”

A liberdade cristã não é licença para o pecado, mas um caminho de autenticidade com Deus. É um convite a viver pela consciência moldada pelo Espírito, não pela vigilância dos outros.

E preciso dizer: não escrevo isso do ponto de vista de alguém que “vive fora dos padrões” tentando justificar uma vida solta, descompromissada. Não. Escrevo como alguém que, por muito tempo, acreditou nesses padrões como verdades absolutas. Escrevo como quem já olhou com julgamento para quem não seguia a “linha reta” da cartilha cristã que me ensinaram. Já critiquei quem escolheu outros caminhos, quem questionou o que eu achava ser “certo”. Já pensei que pessoas assim estavam “se desviando”.

Mas hoje eu entendo que, muitas vezes, elas estavam apenas se libertando — não de Deus, mas de uma ideia distorcida Dele. Estavam se libertando de um sistema que confunde religiosidade com espiritualidade, obediência com conformismo, santidade com aparência.

A graça me alcançou até nesse ponto: no orgulho de achar que eu sabia como alguém devia viver.

E quando a gente se abre pra escutar de verdade o que o Espírito diz, percebe que a vida com Deus é mais sobre escuta e menos sobre pressa. É mais sobre presença e menos sobre performance. É mais sobre seguir a voz de Jesus do que seguir a expectativa de quem se diz “do caminho”.

A fé não é uma cerca. É um caminho. Estreito, sim. Mas não estreito por ser cheio de regras, e sim por exigir que a gente passe por ele despido de orgulho, de certezas absolutas, de controle.

Jesus não veio pra criar uma nova lista de padrões de comportamento. Ele veio pra nos reconciliar com o Pai e restaurar o que o pecado fragmentou: nossa identidade, nossa comunhão, nossa liberdade.

Por isso, quando alguém me pergunta como saber se está vivendo a vontade de Deus, hoje eu não olho mais pra aparência da vida da pessoa — se ela está casada ou não, se tem filhos ou não, se trabalha numa empresa ou em casa, se é pastor ou artista. Eu pergunto: você está ouvindo a voz do Pastor? Está andando com Ele?

Porque no final, é isso que importa. E Ele mesmo disse:

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.”
João 10:27

Se você ouve essa voz e segue, mesmo que a sua vida não pareça fazer sentido pra quem olha de fora, você está no caminho certo. Não porque vive fora dos padrões. Mas porque vive além deles. Vive pela graça, na liberdade do Espírito, com os olhos fixos em Jesus.

E isso — isso sim — é viver de verdade.

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